Com um grupo de participantes muito heterogéneo, vindos de várias associações de base, bancadas e clubes juvenis, o debate foi muito rico e começou por focar a relação entre eleitos e eleitores e a necessidade de se construir a democracia participativa a partir das comunidades locais, aproximando e responsabilizando os deputados pelo desenvolvimento dos sectores pelos quais são eleitos. O processo de escolha dos candidatos a deputados pelos partidos foi também alvo de críticas, afirmando-se que o povo e os militantes de base devem ser ouvidos nesta escolha. Os deputados devem ser pessoas que realmente conhecem e representam as preocupações e necessidades das comunidades locais e contribuem de forma significativa para o desenvolvimento e melhoria das condições de vida daqueles que os elegeram. Políticos que tenham um sentido de serviço público da política e que prestem contas a quem os elege.
Relativamente à crise vivida atualmente na Guiné-Bissau os participantes, organizados em três (3) grupos de trabalho distintos - crianças, jovens e adultos, partilharam as suas percepções sobre como foi vivido o Golpe de 12 de abril em Buba, as causas da contínua instabilidade política e como podem as associações de base mobilizarem-se no sentido de construir a estabilidade e a democracia na Guiné-Bissau.
Em Buba o golpe de 12 de Abril foi vivido com sentimentos de medo, insegurança, frustração, vergonha e vulnerabilidade por parte da população. Trouxe a interrupção do ano lectivo (aspecto destacado pelo grupo das crianças e jovens), a suspensão de vários projectos, o abandono de investimentos e o não pagamento de salários de professores e outros funcionários públicos e a derrapagem de preços de bens.
Algumas das causas dos golpes de estado apontadas foram a falta de entendimento entre os responsáveis políticos e entres estes e a esfera militar, a injustiça e impunidade, falta de competências e baixo nível académico das lideranças, a inveja, o ódio partidário e a primazia dos interesses pessoais, a falta de amor e patriotismo.
Quanto a estratégias de mobilização contra a instabilidade e crise os grupos apresentaram as seguintes ideias:
· união da população para exigir a união dos políticos sem distinção de raça (grupo das crianças),
· realização de marchas e protestos, participar em grupos de jovens, praticar uma deontologia patriótica, procurar sempre aprender mais e compreender melhor (grupo de jovens),
· criar programa radiofónico sobre cidadania e serviço militar, privilegiar o diálogo como forma de resolução de conflitos (grupo de adultos)
Nesta reunião foi ainda denunciado o atual corte massivo de madeira pau de sangue que está a ser levado a cabo por empresas chinesas na região sendo desconhecidos os contornos deste negócio e se, eventualmente, estão previstos quaisquer contrapartidas, benefícios ou compensações às populações lesadas com a perda e destruição dos recursos naturais, tudo sob o silêncio das autoridades locais e nacionais.
Debateu-se ainda a questão da participação feminina e apesar de, de forma teórica, todos os presentes defenderem a igualdade de género, a prática é muito diferente. Foram apontadas pelo grupo inúmeras razões para o menor número de mulheres nas associações, reuniões ou outras acções políticas públicas havendo da parte masculina uma responsabilização das próprias mulheres para este défice de participação e uma forte crítica às jovens actuais acusando-as apenas se interessarem pela discoteca e por “arranjar homem”, estando desinteressadas das questões públicas, políticas e da educação. A questão da dependência financeira masculina foi um tema quente tendo as jovens mulheres contraposto que, nesta altura de crise, são as mulheres com a sua bandeja, o seu trabalho e o seu esforço que sustentam os seus filhos e toda a sua família. Por outro lado, o pagamento dos estudos em troca de serviços sexuais ou de afetos foi defendido por algumas mulheres como uma ajuda necessária para que possam aceder à educação, negando assim a desvalorização da escola pelo público feminino. Aliás a questão do acesso à educação, da progressão nos estudos como condição de autonomia financeira, foi muito sublinhada como uma luta que as mulheres têm de travar para chegar de facto à igualdade.
Foram abordados outros aspectos comummente ligados à desigualdade na participação pública feminina como questões culturais, vergonha, falta de confiança, complexos, falta de formação ou menor nível educacional. Por outro lado, tanto mulheres como homens reconhecem a sobrecarga e as responsabilidades domésticas e familiares, e a valorização da esfera familiar em detrimento doutras, como um dos maiores factores de impedimento de uma maior participação feminina. Face a isto sublinhou-se a necessidade de educação para a igualdade a começar em casa, desde muito cedo, com igualdade de oportunidades para raparigas e rapazes. Mas foi também lembrada a responsabilidade da escola, de professores e professoras, das associações e dos seus e suas dirigentes na promoção da igualdade e do protagonismo feminino, defendendo-se a necessidade de uma discriminação positiva das mulheres na educação uma vez que a taxa feminina de abandono escolar e de insucesso é muito superior à masculina.
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