quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Djumbai Cidadania, Buba, 20 Out 2012



Realizou-se em Buba, no passado dia 20 de Outubro, o maior Djumbai da Cidadania organizado até agora pelo MAC. A convite da AJUMAES (Associação Juvenil para melhoria de Ambiente Educação e Saúde) reuniram-se durante 5 horas cerca de 80 pessoas no Centro Juvenil de Buba para analisar e discutir a democracia na Guiné-Bissau e a instabilidade política criada pelos sucessivos golpes de estado, partindo da actual crise que se vive desde 12 de Abril.

Com um grupo de participantes muito heterogéneo, vindos de várias associações de base, bancadas e clubes juvenis, o debate foi muito rico e começou por focar a relação entre eleitos e eleitores e a necessidade de se construir a democracia participativa a partir das comunidades locais, aproximando e responsabilizando os deputados pelo desenvolvimento dos sectores pelos quais são eleitos. O processo de escolha dos candidatos a deputados pelos partidos foi também alvo de críticas, afirmando-se que o povo e os militantes de base devem ser ouvidos nesta escolha. Os deputados devem ser pessoas que realmente conhecem e representam as preocupações e necessidades das comunidades locais e contribuem de forma significativa para o desenvolvimento e melhoria das condições de vida daqueles que os elegeram. Políticos que tenham um sentido de serviço público da política e que prestem contas a quem os elege.



Relativamente à crise vivida atualmente na Guiné-Bissau os participantes, organizados em três (3) grupos de trabalho distintos - crianças, jovens e adultos, partilharam as suas percepções sobre como foi vivido o Golpe de 12 de abril em Buba, as causas da contínua instabilidade política e como podem as associações de base mobilizarem-se no sentido de construir a estabilidade e a democracia na Guiné-Bissau.

Em Buba o golpe de 12 de Abril foi vivido com sentimentos de medo, insegurança, frustração, vergonha e vulnerabilidade por parte da população. Trouxe a interrupção do ano lectivo (aspecto destacado pelo grupo das crianças e jovens), a suspensão de vários projectos, o abandono de investimentos e o não pagamento de salários de professores e outros funcionários públicos e a derrapagem de preços de bens.



Algumas das causas dos golpes de estado apontadas foram a falta de entendimento entre os responsáveis políticos e entres estes e a esfera militar, a injustiça e impunidade, falta de competências e baixo nível académico das lideranças, a inveja, o ódio partidário e a primazia dos interesses pessoais, a falta de amor e patriotismo.

Quanto a estratégias de mobilização contra a instabilidade e crise os grupos apresentaram as seguintes ideias:
·         união da população para exigir a união dos políticos sem distinção de raça (grupo das crianças),
·         realização de marchas e protestos, participar em grupos de jovens, praticar uma deontologia patriótica, procurar sempre aprender mais e compreender melhor (grupo de jovens),
·         criar programa radiofónico sobre cidadania e serviço militar, privilegiar o diálogo como forma de resolução de conflitos (grupo de adultos)


Nesta reunião foi ainda denunciado o atual corte massivo de madeira pau de sangue que está a ser levado a cabo por empresas chinesas na região sendo desconhecidos os contornos deste negócio e se, eventualmente, estão previstos quaisquer contrapartidas, benefícios ou compensações às populações lesadas com a perda e destruição dos recursos naturais, tudo sob o silêncio das autoridades locais e nacionais.
Debateu-se ainda a questão da participação feminina e apesar de, de forma teórica, todos os presentes defenderem a igualdade de género, a prática é muito diferente. Foram apontadas pelo grupo inúmeras razões para o menor número de mulheres nas associações, reuniões ou outras acções políticas públicas havendo da parte masculina uma responsabilização das próprias mulheres para este défice de participação e uma forte crítica às jovens actuais acusando-as apenas se interessarem pela discoteca e por “arranjar homem”, estando desinteressadas das questões públicas, políticas e da educação. A questão da dependência financeira masculina foi um tema quente tendo as jovens mulheres contraposto que, nesta altura de crise, são as mulheres com a sua bandeja, o seu trabalho e o seu esforço que sustentam os seus filhos e toda a sua família. Por outro lado, o pagamento dos estudos em troca de serviços sexuais ou de afetos foi defendido por algumas mulheres como uma ajuda necessária para que possam aceder à educação, negando assim a desvalorização da escola pelo público feminino. Aliás a questão do acesso à educação, da progressão nos estudos como condição de autonomia financeira, foi muito sublinhada como uma luta que as mulheres têm de travar para chegar de facto à igualdade.


Foram abordados outros aspectos comummente ligados à desigualdade na participação pública feminina como questões culturais, vergonha, falta de confiança, complexos, falta de formação ou menor nível educacional. Por outro lado, tanto mulheres como homens reconhecem a sobrecarga e as responsabilidades domésticas e familiares, e a valorização da esfera familiar em detrimento doutras, como um dos maiores factores de impedimento de uma maior participação feminina. Face a isto sublinhou-se a necessidade de educação para a igualdade a começar em casa, desde muito cedo, com igualdade de oportunidades para raparigas e rapazes. Mas foi também lembrada a responsabilidade da escola, de professores e professoras, das associações e dos seus e suas dirigentes na promoção da igualdade e do protagonismo feminino, defendendo-se a necessidade de uma discriminação positiva das mulheres na educação uma vez que a taxa feminina de abandono escolar e de insucesso é muito superior à masculina.



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